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"Para que não subsistam dúvidas". Município de Leiria reage às acusações de Nuno Melo
O município de Leiria esclareceu esta sexta-feira a cronologia dos acontecimentos dos dias "mais críticos da tempestade Kristin", detalhando todos os contactos e pedidos feitos ao Governo. As explicações chegam um dia depois de o ministro da Defesa, Nuno Melo, ter dito no Parlamento que tentou contactar o autarca de Leiria e não obteve resposta.
"Leiria não quer discutir telefonemas quando ainda há leirienses sem comunicações. Queremos união e recursos para construir o concelho e quero agradecer às Forças Armadas pela elevação institucional e pelo trabalho exemplar que fizeram no terreno", afirmou à agência Lusa Gonçalo Lopes.
O município tinha já lançado esta sexta-feira uma nota. Na sequência das declarações proferidas quinta-feira pelo ministro da Defesa na Assembleia da República, o município de Leiria considerou importante “esclarecer, com rigor factual, a sequência de acontecimentos ocorrida durante os dias mais críticos da tempestade Kristin”, lê-se num comunicado enviado esta sexta-feira às redações.
“Todas as decisões relativas ao empenhamento de meios foram tomadas exclusivamente com base em critérios operacionais e em articulação permanente com as entidades presentes no Posto de Comando”, começa por esclarecer.
“A cooperação com as Forças Armadas existiu desde o primeiro momento e foi sempre enquadrada na gestão do dispositivo de proteção civil”, garante o município. “Para que não subsistam dúvidas, importa esclarecer a cronologia dos acontecimentos”.
A “coordenação operacional com todas as entidades de proteção e socorro” começou a 28 de janeiro, dia em que começaram a ser realizados briefings operacionais “com presença de oficiais de ligação das diversas entidades”, refere.
A 28 e 29 de janeiro o município de Leiria contactou unidades militares sediadas no concelho e o comando sub-regional da Proteção Civil para “avaliar a possibilidade de mobilização de meios militares”.
No entanto, “devido aos danos provocados pela tempestade nas próprias instalações militares e às dificuldades de comunicação registadas nesses dias, não foi possível mobilizar meios dessas unidades”.
"O essencial deve permanecer na cooperação"
A autarquia garante ainda que, desde os primeiros dias da operação, “a primeira força militar a entrar no concelho foi a Marinha, através de fuzileiros, mobilizados na sequência de contacto direto entre o Estado-Maior da Armada e o município”.“Posteriormente, representantes dos diferentes ramos das Forças Armadas integraram o dispositivo de coordenação através de oficiais de ligação no Posto de Comando”, acrescenta.
Nos dias seguintes foi avaliada a possibilidade de empenhamento de militares para vigilância de geradores devido a furtos registados, sendo que o dispositivo operacional entendeu não ser necessário esse reforço.
A 3 de fevereiro foi proposta a mobilização de um reforço adicional de mais de 90 militares da Marinha, numa altura em que o dispositivo já contava com cerca de 90 fuzileiros integrados nas operações, mas considerou-se que “que esse reforço poderia ser mais útil noutros concelhos afetados, o que veio a acontecer”.
“Importa igualmente referir que os meios militares que vieram a ser empenhados entraram num concelho onde o dispositivo de coordenação já se encontrava plenamente montado e em funcionamento, com Posto de Comando ativo, comunicações estabelecidas e capacidade logística assegurada pelo Município, incluindo combustível, alimentação e equipamentos disponibilizados para apoio às missões que vieram a ser executadas”, acrescenta.
Além disso, “durante toda a operação, o município de Leiria manteve uma articulação permanente com as Forças Armadas, tendo recebido no Posto de Comando representantes dos diferentes ramos militares, incluindo elementos do Estado-Maior”.
Nessas ocasiões, o município “fez questão de expressar o seu reconhecimento e agradecimento pelo empenhamento dos militares no apoio às populações”, refere.
“Num momento em que o concelho continua empenhado na recuperação do território e no apoio às populações afetadas, o essencial deve permanecer na cooperação institucional que sempre caracterizou a resposta a esta emergência”, lê-se ainda no comunicado.Nuno Melo disse ter contactado autarca de Leiria sem resposta
Na quinta-feira, o ministro da Defesa disse que contactou o presidente da Câmara Municipal de Leiria assim que chegou a Portugal no dia 29 de janeiro e não obteve resposta, lamentando que o autarca tenha decidido "apoucar" quem o ajudou.
Nuno Melo falava durante uma audição na Assembleia da República, depois de ter sido questionado pelo deputado do CDS-PP João Almeida sobre se contactou ou não com o autarca de Leiria, Gonçalo Lopes, que chegou a queixar-se da falta de militares no terreno durante as intempéries que assolaram o país entre o final de janeiro e início de fevereiro.
De acordo com o ministro, que mostrou aos deputados um “screenshot” da sua conversa com Gonçalo Lopes na rede social WhatsApp, assim que aterrou em Portugal no dia 29 de janeiro, vindo da Turquia, o primeiro telefonema que fez foi para o autarca de Leiria.
"Não me atendeu", disse, acrescentando que enviou uma mensagem e não obteve resposta. Não obstante a "falta de resposta", continuou, os militares partiram para o distrito. Nuno Melo disse ainda que "muitas ajudas foram recusadas", por terem sido consideradas desnecessárias.
O ministro detalhou que, nos dias 1 e 2 de fevereiro, a autarquia recusou militares para vigiar geradores devido a furtos. No dia 2, segundo Nuno Melo, também foi recusada a "valência de drones aéreos" e no dia seguinte "uma cozinha de campanha" e um reforço com mais de 90 militares da marinha para trabalhos diferenciados que foram depois distribuídos para os concelhos de Marinha Grande, Pombal, Ourém e Batalha.
"Que o senhor presidente da Câmara de Leiria se tenha empenhado, também não fez mais do que é suposto. Agora, que para enaltecer o seu próprio esforço, não tenha resistido a apoucar repetidamente alguns daqueles que mais o ajudaram. Isso é que não parece bem. Porque nos grandes momentos a pequena política não pode prevalecer sobre aquilo que é mais relevante", lamentou.
c/ Lusa